A ousadia dos jovens para construir o novo

Priscila CasaleHoje a compreensão da juventude como sujeito de direitos é uma realidade que se afirma. É o que se conclui após a realização da 2ª Conferência Nacional de Juventude do Brasil, conforme relata Priscila Casale, da União Municipal dos Estudantes do Secundário (UMES), de São Paulo, Brasil, numa entrevista muito interessante que vai ser publicada na edição nº 433, de fevereiro de 2013, do Jornal Mundo Jovem, à qual Jovem Rumo teve acesso e divulga em Portugal. Leia e compare as realidades brasileiras com as portuguesas.

  • Quais      são as principais características dos jovens?

As características da juventude sempre foram, e continuam a ser, de transformar, de fazer revolução, de apresentar novas opiniões e, em especial, de se mobilizar e mobilizar todo o povo em torno de uma causa. Primeiro, por uma caraterística quase que fisiológica, o jovem vive um período bastante complicado da vida. É um momento em que começamos a ter as nossas primeiras experiências. Há o conflito da transição da infância para a vida adulta, é quando nos deparamos com os nossos principais desafios; quando começamos a ter uma relação mais profunda com o mundo. É o momento em que conseguimos aprofundar a nossa relação com o mundo e entender quem somos, quais são os nossos passos e qual é o nosso dever.

 

  • Quais      são as principais dificuldades e os desafios da juventude?

Por conta das caraterísticas da juventude, é um período da vida bastante complicado, mas também maravilhoso: é quando começamos a contestar a ordem das coisas, das regras da sociedade. Eu acredito que para o desenvolvimento do indivíduo na sua plenitude, e para o mundo, para os desafios que o mundo tem, para a história da humanidade como um todo, a juventude cumpre um papel fundamental. Quanto aos problemas que a juventude sofre, acho que são os mesmos que a sociedade no geral sofre. Porém, acredito que na juventude os problemas têm mais peso. Infelizmente, por exemplo, o jovem ainda tem mais dificuldade de conseguir trabalho decente, em especial quando se trata de uma jovem mulher ou de um jovem negro, um jovem da periferia.

  • O que      mudou no Brasil em relação aos direitos e às políticas públicas para os      jovens?

Se a pessoa idosa, a criança e o adolescente têm os seus direitos, agora estamos reconhecendo que a juventude é também um ser de direitos e tem que conquistar esses direitos. E são direitos com a finalidade de que a juventude consiga a sua autonomia, a sua emancipação, que ela não fique sempre dependente de uma ação tutelada do Estado, mas que consiga vivenciar plenamente a sua condição juvenil e se colocar no mundo. Além disso, avançámos no que se refere às políticas públicas para a juventude. Desde as conferências livres, nos estados e municípios, foi dada oportunidade à juventude de falar, de enviar as suas propostas e opinar na construção dessas políticas públicas. Nisso há um avanço muito grande de incluir o jovem, porque ouvimos o jovem, sabendo o que ele quer.

  • O que      representa a educação para os jovens?

A educação é a bandeira central da juventude. Sempre foi. Desde o ensino básico ao acesso à universidade, até a conclusão do ensino superior. No Brasil, hoje, vemos avanços consideráveis, mas infelizmente a educação no nosso país ainda não corresponde às necessidades que tem a juventude e muito menos às necessidades que tem o Brasil. A juventude, nesse contexto todo, sofre bastante. Mas acredito que, mobilizada como está e participando nas conferências em todos em níveis, podemos dar passos largos para que a juventude tenha mais direitos e participe no desenvolvimento do país. Este, inclusive, foi o lema da Conferência Nacional de Juventude, realizada em dezembro de 2011. Acredito que não tem como conquistar direitos se não for a partir do desenvolvimento do país.

  • O que      ainda falta na educação brasileira?

Por um lado, foi universalizado o acesso nos primeiros níveis da educação. Mas existe o problema de acesso a uma educação pública de qualidade, porque não existe. São raras as exceções. Os institutos federais de educação e as escolas privadas desenvolvem a educação para o indivíduo de facto como deve ser, com uma estrutura adequada, com biblioteca, laboratório, levando em consideração os avanços tecnológicos, com computador, enfim, com tudo que precisamos para nos relacionarmos com o mundo e o que precisamos de facto para aprender. Até porque na escola não é só a nossa vida académica que está em questão, mas é a nossa formação enquanto cidadãos. Passamos muitos anos da nossa vida dentro da escola. É onde aprendemos a respeitar o nosso próximo, a nos relacionar com o outro, enfim, onde a gente cresce e se desenvolve! A família cumpre um papel muito importante, mas a escola é fundamental.

  • Então a      escola não atende às necessidades dos jovens?

Penso que a escola não atende às necessidades do processo académico, que é ensinar o estudante de verdade, de ele sair do último ano do ensino básico melhor preparado. E também não atende às outras necessidades. Vemos a imprensa a noticiar crimes cometidos nas escolas, como tráfico de drogas e a violência. O espaço da escola não deve abrigar esse tipo de coisa. Precisa ser completamente diferente. Se a educação não cumpre o papel que precisa cumprir, é óbvio que deixa espaço para que aconteçam essas outras coisas que não deveriam acontecer nas escolas. Então é necessário investimento em educação e é necessário que a educação cumpra de facto o papel, que é de dar a possibilidade para que a gente cresça, se desenvolva. O ensino básico deve ser a porta de entrada para o mundo do trabalho e, em especial, para o acesso à universidade. Não dá para as coisas continuarem desse jeito. O espaço que existe entre o ensino básico e a universidade é um abismo enorme. No Brasil, os estudantes, hoje, concluem o ensino sem condições. Existem casos, inclusive, de estudantes concluírem o terceiro ano do Ensino Médio sem saber ler e escrever. Dados recentes do Ministério da Educação relatam que mais de 50% deles ficam abaixo da nota mínima, por exemplo, em Matemática. Mas a juventude está disposta a lutar, a somar forças junto ao poder público para mudar essa situação.

  • Que      importância têm os jovens para a sociedade?

Na história do nosso país, a juventude sempre foi protagonista dos movimentos que lutaram para conquistar alguma coisa. Não só para a juventude, mas para o povo brasileiro como um todo. Alguns exemplos disso são o direito à exploração do petróleo no nosso país, o papel que cumpriu para a redemocratização do Brasil na época da ditadura militar, o voto direto, a exoneração de um presidente da República corrupto, as lutas recentes contra as privatizações do governo Fernando Henrique, a luta pelo acesso à universidade. Como fruto dessas lutas conquistamos o Prouni, o Reuni, etc. Então, concretamente no Brasil, a juventude cumpre um papel fundamental e tem-se mobilizado bastante através das entidades estudantis, a UNE, a UBES e todas as outras entidades dos municípios, dos estados. Nos últimos anos, cumpriram um papel muito importante, especificamente em relação a essa questão da educação.

  • E quais      são as perspectivas para o futuro?

A luta ainda é ferrenha para que a gente consiga as conquistas em todas as instâncias, municípios, estados e no Brasil. Temos que garantir mais investimento e, a partir daí, contribuir para melhorar todo o processo pedagógico, o currículo e o que a escola deve ser. Concretamente, a juventude tem-se mobilizado, em especial pelas entidades estudantis. Mas há também jovens a participar ativamente em partidos políticos. É muito importante a juventude se envolver, tomar partido sobre as questões da sociedade. A Conferência Nacional de Juventude é o ponto de encontro de todas essas lutas da juventude em todo o país. Além do resultado concreto, o que mobilizou de jovens desde as conferências municipais foi muito expressivo. Assim, outras necessidades são levantadas em cada recanto do país. É o exemplo do Estatuto da Juventude, que aponta e garante direitos e conquistas para toda a juventude brasileira. E foi um debate que surgiu a partir da organização dos jovens brasileiros.

 

Nota de Jovem Rumo: E em Portugal, como se organizam e por quais objetivos lutam os jovens?

Na maioria das escolas portuguesas os jovens só se organizam para realizarem bailes e viagens de finalistas. A sua participação cívica e democrática na vida da escola é praticamente nula. Há um total alheamento dos jovens para o exercício de direitos e deveres. Será porque, genericamente, não é fomentado o exercício democrático para a sua participação na vida da escola?

Porque é que os alunos dos 1.º e 2.º ciclos não podem integrar as associações de estudantes?

Porque é que só os alunos do secundário têm assento no conselho geral das escolas?

A resposta é porque, para muitos políticos e legisladores imbecis, os alunos são infantis para terem direitos, mas adultos para serem castigados pelo abominável estatuto do aluno - o código penal das crianças.

É preciso, é urgente, reverter este estado de coisas, para que as futuras gerações tenham uma sociedade melhor e mais justa! n

 

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