O paraíso das smartshops

Rui Rangel, Juiz Desembargador O País e as famílias deste País, que perdeu o rumo e que caminha para o abismo, sabem que as smartshops são lojas de drogas, que a coberto de uma estranha e duvidosa legalidade, vendem muitas substâncias não estudadas, sendo que algumas delas são responsáveis por crises de ansiedade, ataques de pânico e surtos psicóticos que provocam na população jovem.


Sabem que estas substâncias, com a capa da santa inocência, são responsáveis e a causa de idas dos jovens às urgências psiquiátricas. Sabem que elas podem existir em qualquer bairro onde circulam os nossos filhos ou perto das escolas. Sabem que são lojas com uma estranha aparência de normalidade, que têm nascido como cogumelos, sem ruído, sem consciência e sem informação devida e adequada. A maioria da população desconhece esta realidade e este perigo a que a lei dá cobertura. Uma lei pouco clara, vaga e cheia de lacunas, feita de propósito, para deixar entrar pela porta aquilo que nunca devia entrar no País. E sabem que as etiquetas que suportam estas substâncias, dizem, para enganar, o Zé-povinho: " produtos não destinados ao consumo humano", " incensos" e "chás". Passam recibos e pagam IVA a 23%.


Nos sites da internet, apenas, o que se pergunta é se o cliente tem 18 anos, sem mais nenhuma informação suplementar. O seu público-alvo são os jovens deste País, que tem a política da droga e da toxicodependência como a décima quarta prioridade nas preocupações do executivo. O desemprego, a droga, as políticas de natalidade/envelhecimento da população e a falência do Estado Social deviam ser as grandes prioridades do Governo, como acontece nos países civilizados. O que está em causa com as ‘inocentes’ smartshops é a saúde dos jovens. A saúde dos jovens alimenta um negócio ‘das arábias’. A falta de informação, a ignorância das famílias, preocupadas mais com a crise, ainda não pararam para pensar e para perceber as consequências negativas e perigosas destas substâncias (i)legais. O produto que dá o nome à loja mais conhecida da capital, o chamado "cogumelo mágico", é ilegal no país mais permissivo de todos os tempos em relação às drogas, a Holanda.

 


É preciso debater, discutir e alertar a opinião pública para os malefícios desta lei e combater a banalização da droga. Quem ganha e quanto ganha com este negócio? Os responsáveis pelas políticas da droga em Portugal, o que fizeram, o que debateram, o que esclareceram e o que denunciaram? Estas são questões de todos nós, de quem pensa no outro, de quem é solidário e de quem tem amor pelo próximo. Não são só questões dos médicos. O juiz também pode e deve pensar sobre a droga e a toxicodependência. Quem assim pensa, não pensa e não sabe o que diz. Ninguém pode ficar indiferente. A indiferença mata-nos a todos.


CM 24 Maio 2012

 

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