'Tive margens de lucro de 15.000% nas drogas legais'

loja smart - 4Oscar Spierings, um holandês de 30 anos, foi dos maiores produtores e vendedores em Portugal. Em entrevista ao SOL revela as misturas mais explosivas, os lucros com o negócio e os reais perigos do consumo para a saúde. " E é muito fácil pessoas com menos de 18 anos acederem a elas, miúdos com apenas 14, 15 anos", afirmou. "Os vendedores não estão a pensar se lhes fazem mal. Só pensam nos lucros", acrescentou, salientando que "os produtores estão a aumentar as concentrações e a modificar as drogas, para ludibriar as autoridades, em fórmulas cada vez mais tóxicas e mais fortes".

Como foi o seu primeiro contacto com as drogas legais?

Através de amigos na Holanda e pela internet. Mas eu sempre usei drogas recreativas. Quando cheguei a Portugal, estava habituado a boa erva e a boa cocaína. Cá não havia, e comecei a procurar na internet. Estava bastante céptico, até que decidi experimentar amostras de erva e de outras substâncias, já misturadas, que comprava de uma smartshop de Inglaterra. Fiquei surpreendido com a ‘pedrada’ e com as semelhanças com as verdadeiras drogas.

E a smartshop como surgiu?

Percebi que era legal. Foi uma questão económica. Na Holanda, já havia as cofee-shops onde se podia consumir os produtos. Por que não fazer o mesmo em Portugal? Nessa altura, ainda não havia lojas do género no país e decidi criar um conceito novo: uma cofee-smartshop onde os clientes podiam consumir os produtos.

E porque decidiu produzir os seus próprios produtos?

Pensei: se alguém o pode fazer, por que não eu? Então pesquisei, comprei as substâncias sem estarem misturadas, fiz muitos testes e comecei a produzir eu mesmo. Tinha uma certa vantagem, porque já conhecia as substâncias. Mas há muitas empresas falsas na internet que prometem vender todo o tipo de substâncias básicas e, quando se envia o dinheiro, eles nunca chegam a entregar os produtos. É preciso ter bons contactos. Comprava bases de Jwh, de Mdpv, de Naphyrone, Methylone, Buphedrone e 5-Meo-Dalt. Um quilo da substância base custava 3.500 euros. E com um quilo, eu conseguia produzir 15 quilos. Misturava e na loja vendia um grama de produto misturado a 25 euros. Os lucros eram incalculáveis! Ficava-me entre 25 a 65 cêntimos por grama a produção. Cheguei a ter margens até 150 vezes o preço do produto, ou seja, de 15 mil por cento. As pessoas que recebem o verdadeiro dinheiro são os distribuidores e os produtores.

Mas como é que misturava as substâncias?

Aprendi a misturá-las com cafeína, magnésio, proteína, inositol e açúcar. E aprendi a baixar as concentrações de pureza das bases, para evitar que os consumidores ‘flipassem’. Também usava Manitol, um laxante para bebés que provoca gases e assim, os consumidores pensavam que estavam a usar produtos bons porque os efeitos eram semelhantes aos da cocaína. Isto porque o Mdpv é muito mais puro do que a cocaína vendida em Portugal. Fiz muitas experiências. E assim, criei uma marca: Sosa Products.

E como testava os produtos?

Tudo o que vendia, experimentava em mim mesmo. Entretanto fui alargando a rede de distribuidores cada vez mais. A produção mundial concentra-se em África e na China. Mas os distribuidores estão na Austrália, na Nova Zelândia, na Europa de Leste, nos EUA, na China e em África. As bases que eu comprava vinham essencialmente da China, através de Hong Kong.

E vendia o que produzia.

No princípio a ideia era tornar-me distribuidor. Eu era o único produtor do que vendia em Portugal. E essa foi a razão pela qual comecei a ser investigado, primeiro pelo Departamento de Investigação Criminal da PSP e depois pela Polícia Judiciária. Fui preso há umas semanas.

Quanto tempo manteve a loja aberta?

Abri a Little Amsterdam, o primeiro smart-coffeeshop do mundo, no Porto, em Dezembro de 2011, e em Julho a loja estava a fechar.

E quando começou a consumir os seus produtos regularmente?

Como lhe disse, eu já consumia em ambiente recreativo ecstasy, cocaína e erva. Então pensei, quando comecei a ser investigado: se eu experimentar em mim mesmo, talvez eles percebam que estas drogas não são assim tão más. Estava enganado.

O que aconteceu?

Ficou tudo fora de controlo. Precisava sempre de mais. Por exemplo, fumava 20 a 30 cigarros de Herbal Incense com 7 % de Jwh-018 por dia, a erva legal mais forte de ultra. Era como se fossem cigarros. E consumia cinco gramas com 40% de Mdpv básico por dia – ou seja, 120 doses por dia. E muita gente me disse que eu estava a ficar descontrolado, os meus amigos na Holanda. Perdi todos os contactos em Portugal. E continuei a ser investigado. Era demasiado. Então decidi parar. Não queria perder a minha sanidade mental e física.

E conseguiu parar de um momento para o outro?

Sim, mas eu tenho uma força de vontade fora do comum. Usei sempre muitas drogas e sempre consegui parar. Fiz isso durante um ano. Entretanto percebi que a loja não ia durar, porque os media estavam a falar muito nos malefícios destas drogas. Há mais de seis meses que não consumo. E, há algumas semanas, a polícia entrou-me em casa. Acho que estavam à espera de encontrar um laboratório de drogas, mas não havia nada, apenas algumas armas e uma queixa feita de má-fé. Estive um dia preso.

Alguma vez entrou em psicose?

Eu não, porque tenho bastante tolerância. Mas vi pessoas a ter surtos psicóticos ao meu lado.

Qual é a sua opinião sobre as drogas actualmente?

São muito perigosas. E é muito fácil pessoas com menos de 18 anos acederem a elas, miúdos com apenas 14, 15 anos. Os vendedores não estão a pensar se lhes fazem mal. Só pensam nos lucros. Muitos desses produtos são produzidos com substâncias como acetona, perigosíssimas para a saúde. E há outra coisa: há pessoas que vendem a chamada erva legal como sendo marijuana, quando na verdade estão a vender, em forma de incenso, Jwh (ou outros tipos de cannabinoides sintéticos) misturados com Mdpv ou Methylona, que tem efeitos semelhantes aos da cocaína e é muito mais viciante. E em pessoas com menos de 18 anos, ou deprimidas, as consequências podem ser trágicas. Além disso, os produtores estão a aumentar as concentrações e a modificar as drogas, para ludibriar as autoridades, em fórmulas cada vez mais tóxicas e mais fortes.

E o que acha que as autoridades devem fazer?

Proibir. Mas isso vai gerar um mercado negro. É inevitável. Foi assim que eu próprio me vi livre dos produtos que tinha produzido. Vendi tudo para o mercado paralelo.

6 de janeiro de 2013

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